O London Fancy merece ser reconhecido pelo que verdadeiramente é: uma raça definida por uma mutação genética única, e não "apenas um derivado do Lizard". Esta distinção não é uma questão de opinião nem de orgulho. É genética, é história, e é a evidência diária de uma sala de criação. Eu crio London Fancy, estudo-o, e o que se segue é a ciência e a experiência que o sustentam.
Origem partilhada não é a mesma raça
Sim, historicamente o London Fancy terá surgido dentro das populações de Lizard na Londres do século XVIII, entre a mesma comunidade de criadores de Spitalfields. Ninguém nega essa origem comum. Mas dizer "o London Fancy é um Lizard" é como dizer que um cão é um lobo. Podem partilhar um antepassado comum, mas são fundamentalmente diferentes, e no caso do London Fancy a diferença é genética, não apenas visual. Um início partilhado não torna duas raças numa só.
A ciência: "Progressive Greying", não spangling
O fenótipo do London Fancy é causado por uma mutação hereditária específica chamada "Progressive Greying": uma perda progressiva das células produtoras de melanina após a plumagem juvenil. Este não é o mesmo mecanismo genético que produz o spangling no Lizard. São duas coisas completamente diferentes. Isto foi documentado por Hein van Grouw, conservador-chefe de aves do Museu de História Natural de Tring, uma das maiores autoridades mundiais em aberrações de cor nas aves. Compreender este único facto muda tudo o que se segue.
A verdade sobre Piet Renders
Como o nome surge tantas vezes, fique esclarecido. Piet Renders não recriou o London Fancy cruzando Lizards. A mutação do "Progressive Greying" tinha, de facto, desaparecido de dentro da raça Lizard. Ressurgiu espontaneamente num plantel de canários, e Piet, brilhantemente, reconheceu-a e soube usá-la. A ave fundadora do seu programa foi um canário de cor, não um Lizard. Esse canário de cor era portador de genes recessivos para castanho (cinamomo) e branco, razão pela qual temos hoje combinações de cor (branco, cinamomo, isabel) que nunca existiram no London Fancy original. Algum sangue de Lizard entrou na linha a certa altura, e é por isso que os London Fancy modernos têm patas escuras, mas o Lizard não foi a origem do fenótipo do London Fancy.
O que a minha sala de criação prova
Eu não me limito a ler sobre London Fancy; crio-os. Trabalho atualmente com 40 casais de London Fancy por época, e faço-o há vários anos. Em todo este tempo, nunca tive um único Lizard no meu plantel. Nem um. E nunca produzi uma única ave que pareça um Lizard, que se assemelhe a um, ou que sequer vagamente o lembre. Sem spangling, sem rowings. Se o London Fancy fosse realmente "apenas um derivado do Lizard", não seria de esperar que aparecessem retrocessos do tipo Lizard ao longo de 40 casais durante várias épocas? Não aparecem, porque são duas raças geneticamente distintas.
Porque cruzar com o Lizard destrói a raça
Esta associação constante ao Lizard leva as pessoas a acreditar que cruzar London Fancy com Lizard é uma estratégia válida. Não é. Já vi os resultados desses cruzamentos e, honestamente, são desastrosos. Perde-se tudo o que define o London Fancy: melanina espalhada pelo corpo, padrões de asa desordenados, sem contraste limpo. Num único acasalamento desfazem-se anos de seleção cuidadosa, e depois são precisas três, quatro, cinco gerações só para regressar ao ponto de partida. Isso não é criar. É andar para trás.
Os cruzamentos que realmente resultam
Com linhas bem estabelecidas de London Fancy, Spangled e Melânico disponíveis hoje, temos todas as ferramentas para fazer a raça avançar sem nunca tocar num Lizard. E as estratégias certas não são as que a maioria assume:
- London Fancy × London Fancy é, ao contrário do que se pensa, o pior dos bons cruzamentos. Quando ambos os progenitores carregam "Progressive Greying" avançado, a descendência tende a sair lipocrómica: aves amarelas ou brancas limpas, com pouca ou nenhuma melanina nas asas e na cauda. Perde-se o próprio contraste que define a raça. É por isto que compreender a genética importa mais do que seguir suposições.
- London Fancy × Melânico é o verdadeiro padrão de ouro. Os melânicos carregam o gene do "Progressive Greying" mas mantêm a expressão plena de melanina. Trazem melanina intensa e de alta qualidade às asas e à cauda da descendência, exatamente o contraste escuro-sobre-claro que define um London Fancy de topo. É o cruzamento que produz consistentemente os melhores resultados.
- Spangled × Melânico é outro cruzamento excelente e muito produtivo. Gera volume e diversidade genética mantendo tudo dentro da família London Fancy. Muitos dos melhores London Fancy de amanhã virão daqui.
- London Fancy × Spangled é útil quando se procura aves mais limpas, mantendo uma intensidade razoável de melanina nas penas de voo e na cauda.
Uma família genética, e o Lizard não pertence a ela
Repare-se no padrão: cada cruzamento produtivo mantém-se dentro da família London Fancy. Melânicos, Spangled e London Fancy são todos expressões da mesma mutação do "Progressive Greying", em diferentes estágios de seleção. São a mesma família genética. O Lizard não faz parte dela.
Os melânicos são o motor
É por isto que os melânicos são tão valiosos e nunca devem ser subestimados ou descartados. Não são London Fancy "falhados". São o motor de qualquer plantel sério de London Fancy. Sem eles, é simplesmente impossível produzir London Fancy de topo de forma consistente. Quem despreza os melânicos não compreendeu como esta raça funciona.
Para a frente, não para trás
A comunidade do London Fancy trabalhou demasiado e chegou demasiado longe para continuar a ser puxada para trás por mitos ultrapassados. Os livros antigos de há 150 a 200 anos descrevem uma origem partilhada, duas raças a emergir da mesma comunidade de criadores. Mas origem partilhada não significa que sejam a mesma raça, nem que uma tenha "nascido da" outra de um modo que importe para a criação moderna. Foquemo-nos em produzir London Fancy excelentes, com os cruzamentos certos, a ciência certa e o respeito certo pela raça.
Fontes para quem quer aprender em vez de discutir:
- Hein van Grouw, "The London Fancy: its plumage explained" (Cage & Aviary Birds, 2024)
- Hein van Grouw, "Progressive greying: beyond the London Fancy" (Cage & Aviary Birds, 2024)
- Huw Evans, finespangledsort.com (o recurso mais completo sobre a história do London Fancy)
- Hein van Grouw, "What's in a name? Nomenclature for colour aberrations in birds reviewed" (Bulletin of the B.O.C., 2021)